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Literatura
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Agostinho NETO
Agostinho Neto nasceu em Kaxikane, Catete, Angola, a 17 de Setembro de 1922, e faleceu em Moscovo, a 10 de Setembro em 1979, vítima de cancro. Fez os estudos primários e secundários em Luanda, no então denominado Liceu Salvador Correia (hoje Liceu Mutu Ya Kevela).
Agostinho Neto
Enquanto estudante do liceu participou no Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, que tinha por lema `Vamos descobrir Angola´. Depois de terminar o ensino liceal trabalhou nos Serviços de Saúde de Luanda até 1947. Mais tarde segue para Portugal para estudar medicina, primeiro em Coimbra e depois em Lisboa, onde se licencia pela Universidade de Lisboa, em 1958.
Em Portugal, esteve sempre ligado à actividade política, onde com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque fundou a revista Momento, em 1950. Como aconteceu a outros escritores africanos foi preso e desterrado para Cabo Verde, tendo mais tarde sido transferido para Lisboa, com residência vigiada.
Foi lider do MPLA e o primeiro presidente de Angola.
Da sua obra destacamos «Quatro Poemas de Agostinho Neto» (1957, Póvoa do Varzim), «Poemas» (1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império), «Sagrada Esperança» (1974, Lisboa, Sá da Costa), e «A Renúncia Impossível» (1982, Luanda, INALD (edição póstuma)).

Quitandeira

A quitanda.
  Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

   (Sagrada esperança)

Com os olhos secos

Com os olhos secos
- estrelas de brilho inevitável
atravós do corpo atravós do espírito
sobre os corpos inanimes dos mortos
sobre a solidão das vontades inertes
nós voltamos

Nós estamos regressando África
e todo o mundo estará presente
no super-batuque festivo
sob as sombras do Maiombe
no carnaval grandioso
pelo Bailundo pela Lunda

Com os olhos secos
contra este medo da nossa África
que herdámos dos massacres e mentiras

Nós voltamos África
estrelas de brilho irresistível
com a palavra escrita nos olhos secos
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