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Geraldo Bessa Victor
Geraldo Bessa Victor nasceu em Luanda em 1917. Foi empregado bancário. Mais tarde vai para Lisboa onde se licenciou em Direito, exercendo a profissão desde a década de 50. Em 1973 anunciou o término da sua carreira de escritor.
Bessa Victor
Obra poética: «Ecos Dispersos» (1941, Lisboa, Imprensa Portugal-Brasil), «Ao Som das Marimbas» (1943, Lisboa, Livraria Portugália), «Debaixo do Céu» (1949, Lisboa, Ed. Império), «A Restauração de Angola» (1951, Lisboa), «Cubata Abandonada» (1958, Lisboa, AGU), «Mucanda» (1964, Braga, Ed. Pax), «Sanzala sem Batuque» (1967, Braga, Ed. Pax), «Monandengue» (1973, Lisboa, Livraria Portugal) e «Obra Poética (inclui todos os livros anteriores)» (2001, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda.)

Lamento da Maricota

- Bom dia, senhor José.
Como passou? Passou bem?


Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:

- Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?


    Pois, então, eu vou ser franca.
    Agora tem mulher branca,
    a senhora dona Rosa,
     a sua mulher casada,
    a quem chama `minha esposa´;
     já não quer saber da preta,
    desprezada, abandonada,
    a Maricota, coitada!

Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...

- Aiué, senhor José!

    Hoje está forte e contente,
    a passear na avenida;
    não lembra que esteve doente,
    muito mal, quase morrendo,
    e lhe dei jula de dendo,
    para lhe salvar a vida,
    pois nem doutor em Luanda,
    nem quimbanda no muceque,
    ninguém o curou, ninguém,
    senão eu, pobre moleque!

Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, você cheira mal,
vá tomar banho, José!


    Veio agora de Lisboa,
    comprou uma casa grande,
    dorme numa cama boa;
    nós tínhamos, lá no Dande,
    a cubata de capim,
    e dormíamos no luando.

Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!

- Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...

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