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UMA DAS PRIMEIRAS TERRAS DESENVOLVIDAS FOI MACHICO

A distribuição da vida humana subordinou-se à disposição caprichosa do relevo.
Girafas

A beleza da Ilha da Madeira, que lhe conferiu a designação de "Pérola do Atlântico", além da fama mundial, fê-la detentora de um raro tesouro artístico: uma colecção de painéis de autores flamengos dos séculos XV e XVI, de que se pode tomar como exemplo a reprodução da Adoração dos Magos, na Igreja da Nossa Senhora da Conceição, em Machico.

A minha família é oriunda dum antigo julgado do Minho, adstrito a uma vila extinta na actual freguesia de Aboim da Nóbrega, nas terras férteis e aprazíveis da margem direita do rio Lima. D.Manuel I deu-lhe foral, em Lisboa, em 24-X-1513. Tendo a ilha da Madeira sido povoada em 1425 por D.João I, parte da família aí se instalou desde época mal determinada, num Morgadio em terras da Camacha e desta partiram alguns membros para África e Brasil. Pelo conhecimento que temos, conclui-se que a proliferação da família e o nome Nóbrega se deve à propensão para o nascimento, em várias gerações, de número esmagador de varões. Podemos encontrar explicação para a falta de comunicação entre os descendentes, nos segredos que envolviam a Maçonaria, à qual pertenciam alguns dos seus membros.

O nome de Francisco é tradição secular e o de Januário aparece em diversos intelectuais da família. O meu bisavô, Francisco de Nóbrega, era natural da ilha, ao que se dizia filho de uma morgada e a sua ida para Angola envolve algum mistério.

De tradições agrícolas, todos os 8 filhos varões iniciaram a sua vida na agricultura e criação de gado, no fértil planalto da Huíla, vivendo com base na histórica vila da Humpata, sede na altura do concelho da Huíla, antes de transferida para a cidade de Lubango. O varão mais velho, o tio Júlio, no seu último Natal, com 83 anos, reuniu em sua casa, na Fazenda do Hongo, sessenta descendentes directos. Partindo de uma vida pobre como era comum aos sacrificados povoadores portugueses, evoluíram através de tremendos sacrifícios e lograram para os seus descendentes uma vida melhor e, à terceira geração, só não foi doutor ou engenheiro quem não teve o privilégio de ganhar uma Bolsa de Estudos, à custa da refrega que era necessária para se manter em quadros de Honra.

As universidades estavam para cima do Equador e só os meninos ricos é que lá chegavam. Alguns regressavam mais burros e vadios do que quando para lá tinham partido, mas, em compensação, outros aproveitaram bem a oportunidade e nunca desperdiçaram o sacrifício dos pais em mantê-los a estudar no chamado Continente. Alguma correspondência, que nos chegava a longos espaços da família afastada, era guardada em segredo ou destruída. Na nossa curiosidade juvenil, viemos a descobrir escritos de um parente, filho de um lavrador pobre da Ilha da Madeira, um célebre escritor e poeta, Francisco Álvares da Nóbrega, ou de filho seu com o mesmo nome, falando da Grande Comunidade Maçónica.

Eram cartas de um estilo incomum, com uma letra desenhada do gótico, mas com uma descrição clara e inequívoca. Escritos em pergaminhos, guardados nuns tubos metálicos. Desde meninos que perdemos o rasto a esses preciosos e belos documentos. Pouco soubemos de pormenores do passado da família, mas, pelo que nos foi dado fixar do que lemos ali, e nos veio a ser confirmado no Liceu pelo Doutor Carlos Soveral, havia relacionamentos com uma terra do Minho (Barca de Alva?), com a Ilha da Madeira, com o cerco à cidade do Porto pelo Liberal Marquês de Sá da Bandeira, com um Francisco Álvares de Nóbrega, autor duns escritos proibidos que teriam sido publicados em espanhol, algumas referências a dois primos ou irmãos do Padre Manuel da Nóbrega, à Universidade de Salamanca e à Maçonaria. Com muita lástima, não sabemos o que foi feito daquelas relíquias, nem do paradeiro do nosso Tesouro Secreto.

Ligada a este campo proibido, uma colecção de livros sobre os Mistérios da Inquisição, encadernados em couro com letras douradas, contendo um texto apaixonante e ilustrações coloridas que de certo teriam sido produzidas por mãos de grandes artistas. Ainda tenho presente a lisura do tacto ao folhear as páginas e o cheiro característico do papel ou das tintas. Esta colecção, em que tocávamos às escondidas, estava arrumada numa estante de madeira escura, (murilahonde) com portas envidraçadas de vidro facetado, provavelmente cristal, que pousava sobre um armário de portas maciças onde o meu avô, o Pá, guardava cartuchos das diversas armas, pólvora, pastas, folhas do pessoal, escritas, moedas antigas, dinheiro, etc. Aparelhadas com aqueles Mistérios da Inquisição, outras publicações, como o Grande Dicionário de Cândido de Figueiredo e livros que fugiam ao nosso interesse juvenil, de Camilo Castelo Branco, Ferreira de Castro, Júlio Diniz, Eça de Queiroz, Bernardim Ribeiro, a Menina e Moça em encadernação de luxo, a Toutinegra do Moinho (tradução), volumes dispersos dos Magazines Civilização, África na Contra-costa, entre outros, assim como uma interessante colecção do Almanaque Bertrand e outra de uma revista publicada sobre assuntos agro-pecuários, "La Hacienda", vinda da América Latina. Um destaque especial para uma publicação surgida na altura, nos anos quarenta: A Guerra Ilustrada.

O meu pai, Jaime Ferreira de Nóbrega, faleceu com 28 anos em Cabinda, em 1940, vitimado por apendicite, quando eu tinha apenas 5 anos. Sendo Funcionário Administrativo, colocado muitas vezes em maus climas, confiou a criação, minha e de minha irmã, a Jovita, desde bebés, aos meus avós paternos, a quem tratávamos como os meus tios, por Pá e Mã!

FOTO 1

Ainda que o Pá o tenha substituído, passando a ser o pilar da minha existência, partiu para a viagem definitiva quando eu tinha 12 anos, faltando-me, desde aí, em inúmeros momentos, o ombro amigo do pai para revelar sentimentos e incertezas que só ele entenderia. À nossa mãe tratávamos por Nana e foi mais uma irmã que passámos a ter, desde que me lembro de ser gente...

FOTO 2

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