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OS MEUS AVÓS (Consideração pessoal) Parte II

A Mã, nasceu para ser mãe, iluminada pelas supremas qualidades de quem existe para transmitir amor e compreensão a quem a rodeia, incapaz de atitudes violentas para quem quer que fosse, deu à luz o Jaime, o Ângelo, a Juventina, o Lino, a Geny, a Jovita, o Chico e a Judite.

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Girafas
A estes criou, e a seus netos também, assim como a sobrinhos e afilhados que muitas vezes, pela pobreza das famílias, iam parar ao seio da nossa, em busca de lugar duma sobrevivência mais cómoda. A hospitalidade era apanágio de São Januário, dessa quinta em que havia sempre lugar para mais alguém, ou para mais uma família. Vieram juntar-se a nós, mais tarde, o Ivo e o Rui (Guguita), este com apenas 2 anos, filhos do Ângelo e da Hermínia que, estando a viver em Santo António do Zaire, onde o Ângelo era Chefe de Posto, quando nasceu a Gininha mandaram mais estes dois maninhos para junto de nós, refugiados do paludismo daquela húmida zona equatorial.

O Pá, senhor Francisco para uns, patrão para outros, Chico para os amigos, era uma figura inesquecível. De estatura física invulgar, adaptado à vida ao ar livre, com os seus 120 quilos, de aspecto maciço, sem ser muito alto inspirava respeito pela simples presença. Contavam dele façanhas de força e valentia e ainda me lembro de algumas que por diversão nos relatava, nas horas de convívio ameno. A sua voz forte e bem modelada, um sorriso franco que lhe franzia os cantos dos olhos quando brincava ou sorria, emprestavam ao seu rosto moreno uma atracção cordial. Trajava com elegância e um pouco de vaidade, não só quando lidava na agricultura e no trato dos animais, como quando se deslocava ao Lubango, à Humpata ou a alguma fazenda de amigos. Aos domingos de manhã, quando se preparava para acompanhar a sua Maria à missa, cantarolava canções românticas que imprimiam a toda a casa um cunho de alegria contagiosa. Não faltava aos bailes que eram frequentes na nossa sociedade e era exímio bailarino de polcas, «xotices», valsas, tangos e mazurcas. Nisto era acompanhado pela sua Maria que afirmava ter sido a mais linda rapariga do Sul de Angola.

As elegantes botas de montar, rematando o traje típico dos cavaleiros, camisas de malha de seda com uma gravata adequada e um chapéu clássico de feltro que substituía o de abas largas das lides do campo, casaco normalmente escuro a cobrir o tronco largo e o seu inseparável cachimbo, aí ia o Pá, acompanhando a sua esposa, vestida geralmente de escuro, sempre dentro da mesma elegância e sobriedade.

A sua professora, Isabel Teles Grilo, pessoa letrada pelo sistema antigo, que ministrou a quarta classe a Francisco Nóbrega e a todos os jovens daquela geração, teria de certo um excepcional nível de cultura. Desde a música, piano e violino, até ao ensino da língua francesa, matemática, geografia, história e português, tudo ensinava aos seus alunos que sem excepções estimava. E com tal qualidade, que quando derrapávamos com a matemática do liceu, abismávamo-nos com a facilidade com que o Pá nos esclarecia. Os professores da escola da Humpata, com quem sempre tivemos um convívio salutar e de boa amizade, recorriam com frequência ao auxilio do Chico Nóbrega, quando se viam encrencados com alguma modificação dos programas de ensino.

Seria também um autodidacta perfeito, especialmente em conhecimentos de agronomia e pecuária, sendo que, tanto os afamados veterinários, Santos Pereira e Pábulo, da Estação Zootécnica do Sul da Humpata, como os regentes agrícolas e agrónomos do Posto Agrícola da Humpata, Barros Queiroz, Tendeiro, Lebreiro e outros, recorriam aos seus vastos conhecimentos, sempre que lhes surgiam dificuldades. Quando referi anteriormente a sua tenacidade como agricultor, não o fiz por mero sentimento ou toada de retórica. Ser-se agricultor como ele foi, criador de gado desde sempre, tendo alcançado um nível superior de vida para uma tão grande família, com um excesso de produtos agrícolas, que para os não desperdiçar, tinha de os dar aos animais, e transformar em adubo produtos frescos que davam para alimentar gente, sem mercado comercial que absorvesse metade do que produzia, era mais que tenacidade o que o movia.

Distribuía gratuitamente produtos de São Januário pelas famílias mais necessitadas, sem admitir qualquer espécie de retribuição e não gostava de agradecimentos. Julgava-se na obrigação de assim proceder! Na Escola de Rebelo da Silva da Humpata, quando chegávamos de manhã com um carregamento de fruta, era dia de feriado. A distribuição era feita equitativamente, por quem o nosso professor nomeava para tal fim.

Criador de gado e caçador de renome, gozava entre a comunidade boer de elevado prestígio. Era frequente sermos visitados por homens e mulheres daquela comunidade, que viveram no Sul de Angola e tiveram que recolher ao Sudoeste Africano durante a 1ª Guerra Mundial. Um oficial do Exército, reformado, de nome Wella Mufender, por motivos que desconhecíamos, pediu abrigo ao Chico Nóbrega. Foi-lhe entregue uma casa numa das dependências de São Januário onde viveu só, até aos seus últimos dias. Figura impressionante, com cerca de 2 m, de barba branca até ao peito e porte altivo, dias antes de morrer encomendou o caixão, que mantinha debaixo da cama. Quando foi encontrado morto, estava deitado na cama, com as mãos pousadas sobre o peito, fardado e com todas as condecorações colocadas. A serenidade que apresentava não deixava antever qualquer vestígio de morte agitada nem de envenenamento. Parecia ter pressentido o seu fim!

Era uma companhia que estimávamos, pois o seu comportamento para connosco era de um trato inesquecível. Adorava estar rodeado por nós, os jovens, e tendo acompanhado as vidas dos homens da geração do Chico Nóbrega, como a de Teodósio Cabral, que era como de nossa família, desde a juventude, contava-nos as maravilhosas aventuras de todos eles. Foi por ele que soubemos dos episódios que viveram durante a invasão alemã do Sul de Angola e as caçadas e façanhas de verdadeiros Homens do Mato.

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Um dos nossos divertimentos ao domingo era o tiro à bala, em que nunca ninguém superou o meu avô. Só se aproximou daquela precisão, o meu tio Lino, que com o irmão Chico, veio a ser caçador profissional, quando foi aberta a Caça na Reserva do Bikuar - porque os elefantes, em vasto número, vinham destruindo toda a floresta de que dependia a sua sobrevivência.

O Pá empreendia anualmente uma viagem, para os Gambos, Cuanhama ou Cuando-Cubango, onde criava gado com os seus irmãos, Luis e Bernardino. O seu regresso a São Januário era uma festa! ... Vinha a cavalo, adiantado um ou dois dias aos carros-boer em que trazia normalmente muita carne sêca, para nós e para os trabalhadores da Fazenda, trofeus de caça, como cabeças de javali facochero, cabeças de elefante, peles de leopardo, de leão e antílopes, dentes de elefante e de hipopótamo, pássaros exóticos para o nosso viveiro e galinhas de gentio, voadoras como qualquer ave bravia, que à noite recolhiam a uma frondosa mulemba que enfeitava o nosso quintal. De madrugada, os galos anunciavam o despertar com cantos em diversos tons, como que em desafio. Era também frequente trazer potros, comprados aos cuanhamas, quando aqueles aparentavam qualidades especiais. O Jarnaque foi um campeão durante anos e a sua mãe, a Candona, teve aquela origem. Quando potro, foi-me oferecido pelo Pá e por mim treinado a correr ao lado dos automóveis, na estrada entre a Jamba e a serra do Lubango. Veio mais tarde a proporcionar-me o sabor da glória, o que estimula num jovem a ideia de poder viver acima da mediocridade e incute um estado de segurança permanente, sensações que nos levam a manter na vida qualidades de sucesso, em todas as acções e, também, a enfrentar riscos e a vencer obstáculos de toda a ordem. A Candona era a única montada que aguentava longas viagens, sem ser substituida, com o peso incomum, do seu dono como cavaleiro.

Lembro-me, de quando o Pá empreendeu uma longa viagem ao Sudoeste Africano, nos anos quarenta, tendo regressado a casa passado mais de um mês, com um carregamento de sacos de trigo para semente, duma espécie que os sul-africanos cultivavam com sucesso na zona de Windhoekc, a mais de mil quilómetros de distância. Veio a ser galardoado com a Medalha d´Ouro do maior produtor nacional de trigo. Homens como este, não nasceram para serem derrotados. Devo lembrar que o transporte de carga era o carro boer, de dois rodados e puxado a bois, entre doze a vinte e dois, que tinham de comer e beber, durante a dura travessia daquele território semidesértico. Utilizava o cavalo como seu transporte pessoal.

A aquisição daquela espécie de trigo, resultou no mais espectacular sucesso do Planalto, não só para Francisco Nóbrega, como para os outros agricultores a quem distribuiu a semente. Ao contrário das espécies que tinham sido levadas da metrópole, que por inadaptação aos solos e ao clima, resultavam sempre em baixas e desastrosas produções, aquela transformou os milhares de hectares de searas do Planalto da Huíla num verdadeiro mar dourado, com espigas de tal forma produtivas que a sua fama logo chegou aos meios oficiais de Portugal Continental. Foi assim, que daí partiu um grupo de "luminárias" de 1ª, membros duma Junta de Exportação dos Cereais, (faziam-se acompanhar de documentos com o Timbre da República) destinados a colher mais "um fruto" dos que eram produzidos no remoto Ultramar, pelos desclassificados Brancos de 2ª. Por ironia do destino, ou por qualquer outro fenómeno da quarta dimensão, foram bater ao ferrolho do Chico Nóbrega, como poderá ver-se em descrições seguintes.
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