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INTERFERÊNCIA PERNICIOSA DO GOVERNO
A JUNTA DE EXPORTAÇÃO DOS CEREAIS COM SEDE EM LISBOA

Estava eu nas brincadeiras do costume, depois de ter vindo da Escola e já almoçado, a meio de uma tarde de sol, quando dei pela chegada de dois automóveis, vindos da estrada da Humpata.
Girafas
Era sempre um acontecimento agradável a chegada de visitas a São Januário. Saíram dos dois carros seis homens, um dos quais nosso conhecido, o Rebola-Caixotes, taxista da Praça do Lubango. Os outros despertaram-nos a curiosidade, dado o seu aspecto exótico. Umas fatiotas compostas por calção e meia alta, que estávamos habituados a ver em inúmeras pessoas e a usar, mas que naqueles indivíduos, por qualquer circunstância alheia ao nosso entendimento, pareciam fatos de extraterrestres: camisas de Chefe de Posto, usadas pela primeira vez, com os vincos, como os das que a minha avó nos vestia nas lojas, para experimentar; uns detestáveis capacetes coloniais que já tínhamos visto na loja do Palhotas em Sá da Bandeira e que traziam vestígios de poeira semelhante à das garrafas de vinho esquecidas nos recônditos da loja do tio Luís, completamente diferente da poeira com que nos sujávamos nas viagens de carro daquele tempo.

O visitante que se destacava, pelas vestimentas e pela arrogância, trajava um fato cinzento, de «domingo», no seu «cabedalão» comparável ao do meu avô. Dirigia-se aos outros numa toada irritante, como a que estávamos acostumados a ouvir ao Cabo dos Sipaios, quando falava com os condenados que trabalhavam na estrada, de pá e picareta. Quando saiu do carro e quando se mexia, notava-se um coldre fixado ao lado direito da cintura, parecido e com o brilho dos que o senhor Peão nos fazia para meter as pistolas do Natal.

A minha curiosidade redobrou, quando verifiquei que falavam português! Estávamos na presença dum grupo de Brancos de 1ª, tão rosadinhos como alguns ingleses que já tínha visto passarem por São Januário! Perguntou-me onde se encontrava o dono da Fazenda, mas entretanto chegou o Pá, montado na sua égua favorita e apeou-se da Candona, suada e com espuma, o que fazia supor que vira os carros ao longe e logo se dirigira a galope para receber as visitas. Cumprimentou-os com o seu ar afável de sempre.

O seu aspecto, moreno, o seu à vontade, contrastavam em tudo com o daqueles forasteiros. Após uma troca de palavras de apresentação recíproca, o visitante exibiu, orgulhosamente, uns papeis com o timbre da República, dizendo que vinham ali com o intuito de ver o trigo que os agricultores possuíam, para o comprar em nome do Governo, a quem eram obrigados a entregar.

Talvez o Branco de 1ª não se tivesse apercebido da modificação que se operara no rosto do meu Avô, que precedia uma tempestade, caracterizada pelo alisamento da testa e um estreitamento da linha dos lábios, ou, estaria demasiadamente confiado na eficácia do seu pistolão e na presença dos seus guarda-costas. - Ninguém andava armado no nosso meio, a não ser para caçar -.

As rugas dos cantos dos olhos tinham desaparecido e o Chico Nóbrega mandou-me buscar as chaves do armazém.

Quando o armazém foi aberto, as bocas dos homenzinhos escancararam-se de espanto, pois os sacos de trigo, cuidadosamente arrumados chegavam à cobertura de zinco e, na entrada, mal cabiam mais que dois homens de cada vez. Este armazém foi uma antiga igreja holandesa, com mais de seis metros de pé direito, ocupava toda a largura do campo de ténis e tinha uma profundidade superior a quinze metros. Aos três metros de altura, constituindo um segundo piso interior, havia um estrado em madeira, apoiado em fortes vigas de eucalipto.

Quando o mandão disse o preço a que o Governo pagaria por arroba, voltou um sorriso tenebroso ao rosto do Chico Nóbrega e este, com a voz baixa e pré-explosiva, disse aos indivíduos que o trigo era dele e da família; que o vendia a quem queria; pelo preço que entendia; que se vinham buscar o trigo eram poucos para o levar, se voltassem, para trazerem mais gente, para o levarem também a ele, encaixotado e de pés para a frente, e à família para sustentarem; que as armas que traziam não chegavam, pois tinha uma Flobert com que os netos caçavam as rolas, que dava bem para fazer com que voltassem para a Metrópole, "a dar com os calcanhares no rabo". Se não queriam voltar a pé, que se metessem nos carros e desaparecessem rapidamente, enquanto tinham tempo!...

FOTO 7

Na verdade, tivessem ou não pressentindo o que a seguir poderia acontecer, no meio de ameaças atabalhoadas, foram-se acomodando nos automóveis. Passados poucos minutos São Januário apresentava a tranquilidade de sempre... Os anos passaram-se e nunca mais nenhum emissário do Governo voltou a tentar ir lá buscar o trigo, ou fosse o que fosse!

No entanto, aquele episódio caiu de tal forma mal ao meu Avô, que foi reduzindo as colheitas de trigo, de ano para ano, substituindo-as por outras, como o tremoço destinado à exportação, até que apenas o essencial para o consumo da família era semeado nuns quantos hectares, alguns em S. Januário, outros na quinta das nespereiras, na povoação da Humpata!

Já tivera outras grandes arrelias com a produção do trigo, como uma ou duas pragas de gafanhotos, que deixaram as searas totalmente arrasadas. A primeira invasão destes insectos devastadores foi de tal forma catastrófica para a agricultura que a minha avó teve de vender todos os valores em ouro, herdados dos nossos antepassados, para se pagarem os salários aos trabalhadores de campo. A segunda praga originou, a título de compensação pelos estragos, uma Licença Especial por parte do Governo, autorizando o meu Avô a carregar diversos carros de mercadorias, para serem comercializadas ao longo de várias viagens de funante, actividade que detestava. Isto, porque a sua qualidade de agricultor, que já merecera do Governo o agraciamento com a Medalha de Mérito para o melhor produtor nacional de trigo, durante o mandato de Câmara Leme, era, além da de criador de gado, uma opção nata. A sua realização como homem criador.

Em tempos anteriores, tinha a sua sede na Humpata, a firma comercial denominada Nóbrega & Nóbregas, Lda., constituída por todos os irmãos de Francisco Nóbrega, da qual era guarda-livros e Gerente Comercial. Por graves desavenças entre os mais velhos, a empresa foi dissolvida e os seus bens, fazendas agrícolas e gado bovino e cavalar, equitativamente distribuídos pelos diversos irmãos. O único estabelecimento comercial que restou da quezília passou a denominar-se Abrunhosa & Cia, nome originado pelo casamento da irmã mais velha, a Ascensão, com um jovem Abrunhosa.
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