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| Livros de Autor <- Voltar à secção: - Livros de Autor | | | UM EPISÓDIO - O PRIMEIRO LEÃO
Aos 15 anos, a trabalhar e ainda a estudar no Liceu Nacional de Diogo Cão, onde ia fazer os exames, fui escolhido pelo Engº. Jorge Cândido Osório, Chefe da Missão de Estudos do Caminho de Ferro de Moçâmedes, para ir ajudar na Topografia, o Topógrafo Ângelo Monteiro Ralha, destacado de Lisboa para proceder à Triangulação da região da Matala, onde veio a ser construída a barragem com aquele nome.
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Fui para Capelongo com um Land-Rover a gasolina, de caixa curta, maravilhoso carro para corta-mato, um velho porta-miras, o Curica, equipamento de topografia e uma "kropatchek", poderosa carabina de repetição, de 10 tiros. Só que as munições, antiquíssimas, falhavam com muita frequência. Depois do jantar de determinado dia, o cozinheiro veio chamar-me, porque ouvira os nunces a assobiar na massambala. Emitem, pelas narinas, como meio de comunicação, um silvo que se ouve à distância.
Metemo-nos os dois pela lavra dentro. As plantas, ainda novas, chegavam-nos à cintura e, andado cerca de 1 quilómetro, com o farolim de cabeça a rasgar a noite em todas as direcções, o nevoeiro, tocado a vento do lado do Rio Cunene, começou a interferir no facho de luz, reduzindo a visibilidade e deturpando as imagens. Vislumbrei uns olhos esquivos, demasiado grandes para nunce, mas, como frequentemente andavam por ali os holongos, não estranhei muito. Acertei a direcção do foco com a da arma apontada, apertando o gatilho assim que voltei a ver os olhos. Um clique seco denunciou o fracasso e accionei a culatra, substituindo o cartucho.
Um pouco mais longe, voltei a ver os olhos e de novo apertei o gatilho. Desta vez, em simultâneo com o fragor do tiro, um poderoso ronco pareceu fazer estremecer a terra, congelando-me o sangue nas veias. Sem ver mais nada no meio da pequena nuvem produzida pelo tiro, em confusão com o nevoeiro e o terror, foquei para trás a ver se via o cozinheiro. Apenas as folhas de massambala a abanar, denunciando que um bípede tresloucado ia a fugir à minha frente, pois eu também, ridiculamente, (se o leão tem atacado não tinha tido a mínima chance), voava naquela direcção.
Não sei como, porque na passagem não tínhamos dado por ela, vimo-nos os dois, a tremer, dentro de uma pequena cabana de pau a pique que jazia ali, abandonada, no meio da lavra. Sabia que se o ofendido se aproximasse era sem ruído e lá fora, apenas se ouvia o arejar das folhas da massambala! Até os grilos se tinham silenciado... Conseguimos um estado de espírito mais sereno e acendemos uma fogueira, com uns troncos que ali estavam, providencialmente, e mantivémo-nos toda a santa noite de vigília, de arma apontada para a pequena porta, esperando que o Rei viesse tirar a desforra. Felizmente, isso não aconteceu.
Pela manhã, depois do sol radioso ter limpo os últimos vestígios do nevoeiro, lá nos aproximámos, pé ante pé, até ao local, onde encontrámos o grande felino. Estava deitado de borco, o projéctil tinha penetrado ao lado de um dos olhos e saído pelo pescoço, pelo meio da farta juba negra que caracteriza os leões daquela savana. Quando tirávamos a pele, já acompanhados por numerosa turma, fui chamar o Ralha, para ver a minha caçada. Não sabia do que se tratava e quando chegou ao local, ou pelo cheiro activo das vísceras, ou pela surpresa que lhe causou a presença da fera, caiu inanimado. Não passou de mero desmaio, mas nunca mais foi assistir a estas cenas.
Tratava-se dum belo exemplar e veio dar-me a fama de grande caçador, no âmbito dos autóctones, que veneram os caçadores de leões! A partir daí, até eu me convenci de que era verdade e tentei fazer por nunca deixar os meus méritos por mãos alheias, sempre que fui convidado para aquelas lides. Naquela região de criadores tradicionais de gado, onde estes predadores são os principais responsáveis por grandes perdas nas manadas, é frequente termos de cumprir aquela missão.
Má sorte teve um cão de estimação, nesta mesma altura da nossa vida sertaneja, quando um atrevido leopardo veio caçá-lo, após o anoitecer, no espaço compreendido entre a cozinha e o refeitório, assim que o cozinheiro o atravessou, entrando no referido refeitório com o jantar. Ouvimos um latido e um estrebuchar, agarrei imediatamente na espingarda e no farolim, mas do leopardo e do cão só voltámos a ver as pegadas ali deixadas. No dia seguinte, de dia, lá demos com o local do festim, a menos de trezentos metros do nosso quintal.
FOTO 9
Sobre o Leão:
«Essa é a hora de os bichos velhos assaltarem o negro e os ferozes gatos vermelhos e pardos caçarem os seus animais domésticos. Mas só o leopardo velho e o leão desdentado, escorraçados da floresta pelas hienas e chacais, e loucos de fome, caçam o homem a dormir junto ao fogo morto. Ao nascer do sol, reina silêncio na selva. O homem sabe das matanças da noite pelo voo dos abutres e pelos seus mergulhos rápidos nas ondas verdes da floresta.»
(A Maravilhosa Viagem - Castro Soromenho)
FOTO 10
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