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"A Partilha" (Parte III), conto de Natal, por Joaquim de Lisboa

Mal esperou pela manhã para se levantar e ir para a casa de banho onde já tinha aprendido a servir-se do chuveiro.
Natal
A água tépida revigorou-a e passados momentos era uma outra Florinda que dava os bons dias a uma estremunhada Milena que achava ser o sono da manhã o mais retemperador.

Reviram os planos para o dia e às oito horas menos dez dirigiram-se para o largo da escola onde teve a surpresa de encontrar os alunos formados à entrada do local habitual como se uma invisível porta lhes vedasse a passagem. Assim não foi surpresa quando somou a sua voz à da sua ajudante na saudação dos bons dias e em resposta recebeu do afinado coro o seu já conhecido:

- Bom dia, senhora professora!

Formalmente deram entrada no recinto, onde cada um tomou o seu lugar habitual. A Milena produziu um pequeno discurso entremeado de expressões que lhe eram desconhecidas que no fundo se resumiam, como lhe explicou, no chamar a atenção para o quanto deviam estar gratos por uma senhora professora aceitar um local daqueles quando poderia ficar na cidade, e de como deviam demonstrar reconhecimento com o seu comportamento exemplar.

Depois foi a sua vez de falar. Frisou saber que todos percebiam bem o português mas que também ela desejava aprender a sua língua. Foi curta a sua intervenção. Realçou a sua vontade de os ajudar e de algum modo contribuir para sua formação.

As divisões das turmas foram-lhe apresentadas e cada um por si, apresentou-se declinando nome e idade. Alguns sabiam apenas o nome mas hesitavam quanto à idade o que originava risos semi-escondidos dos restantes.

A Escola só funcionava das oito da manhã até ao meio-dia, o que considerava pouco para eles mas decerto bastante para quem tentava acompanhar o pensar de tantas cabeças. Depois foi o começar do bê-á-bá para uns, o desenvolver caligrafias e ditados para outros além das surpresas que foi tendo nos alunos mais avançados que lidavam com a matemática de um modo que a surpreendeu. Mais tarde chegou mesmo, à socapa, a assistir a discussões sobre triângulos e circunferências, com alguns a apoiarem os seus conhecimentos em desenhos que inscreviam na poeira do chão onde, com rapidez, traçavam rectas e círculos.

A "sua" Milena revelava-se uma mulher de uma solidez a toda a prova e a sua passagem pela missão religiosa dotara-a de uma enternecedora capacidade de julgamento...isso é mau - dizia para um -...ou isso é bom - admitia a outro.

Foi uma feliz professora que o Zé Marques veio encontrar quando, de surpresa, a meio da semana a veio visitar. Os alunos mantiveram-se num religioso silêncio enquanto eles conversavam por meia hora junto à entrada virtual do recinto.

- Não mandou nenhuma mensagem - inquiriu

- Não foi preciso. Afinal só vim há três dias. Ainda mal me instalei. - respondeu.

- Gosto de saber que está bem. Quer ir passar o fim-de-semana à cidade. Viria buscá-la no sábado à tarde - ofereceu.

- Não...acho que não. Fica para o próximo. A Milena é boa companhia e tenho o pessoal do Posto Médico. Se estiver sem nada para fazer talvez até me deixem ajudar lá. Sou também capaz de fazer um curativo... que acha?

- Um conselho menina - aqui o Zé franzia a cara - não queira virar Florence Nothingale. Eles próprios lhe porão as rédeas curtas, estou certo. Saiba que há muitas doenças que se apanham por contágio. Não estrague tudo achando que deve ir além da chinela. Estamos entendidos?

- Sim. Foi só uma ideia.

- Bom. Se está tudo bem... Venha daí acompanhar-me a casa. Quero deixar-lhe meia dúzia de alfaces fantásticas e mais umas coisas que lhe manda o seu amigo produtor das abóboras. Acho que ele ficou pelo beicinho consigo. Nunca eu consegui alfaces daquele tamanho para mim. Ai...ai - brincou. Se achar que não devora tudo aqui leve duas aos do Posto médico e se for dar uma ao Chefe do Posto da Polícia vai ver que também essa renderá juros. Eu poderia ir fazer a distribuição mas você precisa de circular. Percebeu?

- Sim. Farei isso. Agradeça por mim ao... ao produtor de brócolos...ou abóboras. Já não sei como o tratou!

- Tá. O produtor de abóboras chama-se...Delfim. Cuide-se moça. Gosto de ver esse sorriso.

Enquanto se afastava ela ainda pode ouvir o Zé a rosnar: «Estes miúdos nem sabem a sorte grande que lhes saiu na rifa..»

O motor do carro roncou no seu conhecido ruído e ela viu o seu cordão umbilical afastar-se numa nuvem de pó.

À tarde fez como ele lhe tinha sugerido e abalou com dois sacos de plástico com alfaces que tinham ficando em bacias com água para não murcharem demasiado e algum feijão verde a caminho do Posto Sanitário. Os amigos agradeceram e quiseram retribuir com umas guloseimas que tinham recebido mas ela não aceitou. Sabia que ali no Posto Médico um rebuçado ou outro mimo parecido podia ter o efeito do melhor remédio. No caminho passou pelo Posto Policial onde deixou o outro saco para o Chefe da Polícia, que um guarda cuidadosamente tratou de levar para uma casa contígua e avisando de que o chefe depois agradeceria. Estava feita a distribuição. Missão cumprida. Quanto aos seus alunos interrogava-se sobre o que comeriam ou o que não comeriam. Era impensável tentar dar algo a um deixando todos os outros na expectativa. Para isso alertou a fiel companheira dizendo que os alimentos estavam a cargo de outra organização semi-estatal que semanalmente distribuía o possível. Ali a escola não podia virar posto de distribuição de alimentos. Isso seria um passo para instalar a confusão. Cada macaco no seu galho...repetia. Mas era com angústia que via as suas barrigas inchadas e os seus umbigos protuberantes debaixo das t-shirts esfiapadas. Custava-lhe imenso engolir o seu prato de comida se dava em pensar naqueles olhos interrogadores de tantos porquês. Havia de se habituar. Assim como eles próprios se tinham habituado a circunstâncias tão desfavoráveis. Eram capazes de estar horas numa bicha sem esboçar um gesto de protesto ou desistência. Cedo tinham aprendido o valor da paciência. Até nas aulas eram os meninos mais bem comportados que se podia imaginar. Raramente, algum pedia para sair da aula a fim de ir ao mato fazer as suas necessidades. Tinham hábitos que até os adultos custariam a imitar.

O fim-de-semana chegou e como já estava decidido por ali ficaria. Seria esse o seu primeiro fim-de-semana a sós com a sua protectora Milena. Aproveitou para começar a ler um livro quando foi distraída dos seus pensamentos por um barulho vindo da rua que a assustou. Um carro tinha feito tal travagem que parece que tinha atropelado alguém. Assomou à porta de livro na mão e eis que do Jeep sai o Chefe da Polícia que a cumprimentou:

- Bom dia, senhora professora. Peço desculpa de não ter ainda agradecido o que foi levar a minha casa. Minha esposa também agradece. Venho trazer-lhe um pouco de carne de caça, apanhada mesmo esta noite. É carne mesmo boa. Pode perguntar à Milena.

Posto isto saiu do carro um ajudante com um grande embrulho. Sorriu ao aceitar e agradeceu.
O carro arrancou e foi atarantada que entrou na cozinha carregando aquilo que lhe parecia ser um quarto de um boi.

- Milena...temos carne. Trouxe o chefe do posto! E depositou o embrulho em cima da mesa da cozinha.

Um sorriso aflorou à cara da Milena que com todo o seu desembaraço cortou o barbante que mantinha unidas as folhas de bananeira para logo do interior começar a surgir uma perna de um grande veado apresentando o aspecto de corte recente.

- Boa...Milena. Mas o que vamos fazer a tanta carne?

- Ora....fartura nunca fez fome - sentenciou. Para mais talvez os nossos amigos do Posto Médico não tenham recebido desta vez. Vamos estufá-la e dará para uma semana. Se o Zé Marques vier até pode levar para uma refeição para eles.

Aquela Milena era impagável - pensou. Estava a começar a perceber como é que as coisas funcionavam por ali. Não havia talho mas chegava carne fresca. Não havia venda de hortaliças mas apareciam alfaces lindas. Gosto desta terra!!! exclamou!

As semanas passaram a correr mais rapidamente e a quadra festiva do Natal aproximava-se. Da mãe recebia cartas não só a interrogá-la do seu verdadeiro estado de saúde como dos problemas que porventura enfrentava. Respondia também com longas cartas que escrevia à noite quando o silêncio se instalava contando como tinha corrido o seu dia e o que ensinava e o que, também ela, aprendia.

Assim que a quadra de Natal se aproximou a mãe insistia que devia ir passá-la a casa, sem que isso significasse o abandono do seu trabalho. Quinze dias seriam suficientes para matar as saudades e depois regressaria. Ainda pensou em fazer-lhe a vontade. Debateu mesmo o assunto com os seus colegas da cidade. Mas por fim tomou a decisão... Não iria. Já tinha passado muitos Natais rodeada de filhós e rabanadas, de nozes e pinhões, de prendas e luzinhas! Seria para ela um Natal diferente passar essa Quadra junto aos seus meninos, ou pelo menos, na casa mãe, na companhia de todos os outros que não tinham disponibilidades para viajar. Finalmente a mãe convenceu-se da inutilidade dos seus insistentes pedidos.

Uma semana antes da data festiva, apareceu o Zé Marques na sua visita trazendo para ela uma encomenda mandada pela mãe. Olhou o embrulho que mãos carinhosas tinham dobrado meticulosamente e à noite, no sossego do seu quarto, abriu a encomenda. Junto a uma enorme carta vinha um pouco de tudo aquilo que simbolizava a mesa farta que na sala dos seus pais teria, na noite festejada, um lugar vazio. As lágrimas assomaram os seus olhos. Acariciou o pacote de nozes e avelãs, as frutas cristalizadas e tudo o mais e mentalmente começou a tentar uma divisão. Não era fácil. O que daria para enfeitar uma mesa de consoada depressa se revelava insignificante se dividida por duas ou três. Mesmo assim fez partilhas e para si, apenas guardou um pequeno pacote de amêndoas. A sua mãe não havia esquecido o quanto ela gostava delas e embora sendo a tradição mais de Páscoa do que Natal havia incluído aquele pequeno pacote. Estava resolvido. Iria com a Milena passar o Natal à casa da cidade mas antes havia que se despedir dos seus meninos.

Na antevéspera a aula foi menos formal. Uma conversa simples sobre o Natal e o seu significado. Durante a conversa os seus olhos caíram na sua mala de mão e lembrou-se do pacote das amêndoas que repousava dentro.

E se? Ah não!!! Tinha-as contado através do celofane e sabia que havia ao todo apenas cerca de trinta. Ali à frente dela estavam mais de cem alunos. Não haveria milagre que as multiplicasse... a não ser que...

Quase sem querer levou a conversa para o campo da matemática. Propôs um problema simples. Queria ver quem, dentre deles, arranjaria a solução para dividir trinta amêndoas...por cento e vinte meninos. Os alunos mais adiantados, que não viam naquele enunciado mais que um problema, depressa puseram mãos à obra e surgiram divisões simples por parte dos mais novos até fracções nos mais adiantados.

A resposta mais simples veio de uma pequenita que afirmou ter a mãe, certa vez, dividido uma amêndoa pelos quatro irmãos...partindo-a com um martelo.

Ali estava a solução...pensou. Percorreu com os olhos todos os fragmentos de rocha que, limpos e alinhados lateralmente, pretendiam exemplificar os vários minerais. De entre estes escolheu dois pedaços que mais se identificavam com a função que desejava dar-lhe. Pediu silêncio. Da sua mala extraiu o pequeno pacote de amêndoas cujo papel fazia um ruído ensurdecedor no silêncio reinante. Abriu-o. Extraiu uma amêndoa e com a pedra deu um golpe seco. O resultado não foi decepcionante. A amêndoa partira-se em três ou quatro bocados. Pô-los de lado e uma e outra vez repetiu os gestos. Das cabecitas que a olhavam nem um sussurro. Finalmente a última amêndoa ocupou o lugar das anteriores e...se a matemática estivesse certa haveria um pedacinho para cada um.

Mandou que fizessem fila e se aproximassem um a um, recebendo cada qual o seu quinhão e regressando aos seus lugares onde se deviam manter com a palma da mão aberta até ser dada a ordem para provar aquilo que já devoravam com os olhos.

Imitou o padre na perfeição, distribuindo a cada um pedacinho de amêndoa como se de uma comunhão se tratasse. Também ali, a divisão não significava receber uma parte incompleta, mas sim o todo. Uma verdadeira e completa amêndoa!

Terminou a distribuição e apoderando-se do seu próprio pedaço preparou-se para o colocar na sua boca dando ordem para que cada um procedesse de igual forma. Um ligeiro restolhar e um sorriso uniforme espalhou-se por todos os rostos.

Por fim, com a voz embargada pela comoção, gritou-lhes:

- BOM NATAL... meninos!

E como num eco, mas aumentado por cem, ... ouviu o retorno:

- BOM NATAL.... SENHORA PROFESSORA!

By: joaquimdelisboa@yahoo.com

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